POLÍTICA SALTENSE
- Valter Lenzi
- 4 de jul. de 2016
- 4 min de leitura
O pedreiro, que foi o “6º homem” e 2 vezes presidente da Câmara

Nas eleições de 3 de outubro de 1959, vencida por Vicente Scivittaro (2.522 votos) sobre Annibal Negri (1.697 votos), o candidato eleito à Prefeitura de Salto conseguiu eleger 6 vereadores (Joseano Costa Pinto, Henrique Milhassi, Valentim José Moschini, Flávio Della Paschoa, Anésio Bovolon e José Batista de Aguiar). Pela facção de Anibal (PSD-PTB) se elegeram 5 candidatos: Mário Dotta, Hélio Steffen, Adélio Milioni, Mário Effori e João Batista Milioni.
O popular Chinchino tinha maioria na Câmara, mas a diferença de apenas um vereador era preocupante, principalmente porque a oposição vinha tentando atrair um deles, Henrique Milhassi, homem simples, que exercia a função de pedreiro e que se iniciava na política. Aliás, ele foi incentivado a ser candidato até por gozação de alguns amigos, mas acabou sendo eleito, surpreendendo muita gente. Tomou posse em janeiro de 1960 e manteve-se fiel à sua facção, que tinha hegemonia na Mesa da Câmara, com José Batista de Aguiar como presidente. Henrique Milhassi como vice, Joseano Costa Pinto como 1º secretário e Valentim J. Moschini como 2º secretário.
Naquela época as disputas na política saltense eram renhidas e as duas facções existentes faziam o possível para obter o maior número de vantagens possíveis. A situação procurava se manter em maioria no Legislativo, enquanto a oposição buscava uma forma de convencer um dos 6 da facção que apoiava o prefeito Chinchino e mudar-se para o seu lado. Seus integrantes sabiam que isso seria difícil com cinco dos seis, que eram “chinchinistas” fanáticos, e a esperança era depositada em Henrique Milhassi, que inclusive em algumas votações demonstrava não sofrer grande influência do “chefe”, pois votava de acordo com o seu pensamento e no que achava que iria beneficiar o povo. No jornal O Liberal (que era contra a facção chinchinista) começavam a ser publicadas pequenas notas, com a foto de Milhassi, ainda em janeiro de 1961, com a pergunta: “Será ele o futuro presidente da Câmara”.
No dia 1º de fevereiro de 1961 foi realizada a eleição da nova Mesa Diretora e, para surpresa de muitos, Henrique Milhassi foi eleito presidente, com os votos da oposição mais o dele, formando a nova Mesa com 2 oposicionistas: Mário Effori, vice-presidente e João B. Milioni, 1º secretário, além de Anésio Bovolon com 2º secretário. A sessão, ao contrário das anteriores, se realizou às 14 horas, ao invés da costumeira 20 horas e, segundo comentário publicado no jornal O Liberal de 4 de fevereiro daquele ano, a oposição acreditava em “cambalacho” por parte do presidente José Batista de Aguiar. Este, porém, garantiu a seriedade e a honestidade da eleição, ao discursar para prestar contas do trabalho realizado durante o ano, quando criticou o novo presidente, dizendo que Milhassi era um traidor, pois fora eleito com o apoio de Chinchino e se unira à oposição. Milhassi respondeu citando a atuação de “políticos profissionais”, se referindo possivelmente a Chinchino, e acusou José Batista de Aguiar de não ser eleitor em Salto, mas em Rio das Pedras (acusação que não se sustentava, pois se ele não fosse eleitor em Salto, não poderia ser eleito no município).
Essa discussão demonstrou que Milhassi cortava as boas relações que mantinha com os companheiros da facção pela qual havia sido eleito, além de se rebelar contra o prefeito Chinchino. Aliás, em seu discurso de posse, afirmou que por ser independente e por não ter traído seus eleitores, sentia-se sacrificado e perseguido pelos próprios companheiros de legenda partidária, mas isso não serviria para desanimá-lo.
Na edição seguinte, O Liberal publicou uma entrevista que fizera com Milhassi, o qual se defendeu das acusações de ser traidor, elogiou dois vereadores da oposição (Mário Dotta e Hélio Steffen) e o deputado Archimedes Lammoglia, revelando ainda que “o povo pedia” para que ele fosse candidato a deputado federal. Durante seu mandato, aliás, tomou diversas atitudes acompanhando o voto dos oposicionistas, principalmente quando havia empate (5 contra 5) e cabia a ele desempatar. Era o “6º homem”, o fiel da balança, aquele que realmente decidia.
Nem sempre, no entanto, votava com a oposição e por isso chegou a receber pesadas críticas do mesmo O Liberal que ficara satisfeito com sua eleição. Na coluna “Ser Saltense”, o editorial do jornal, de 4 de março de 1961, por exemplo, sob o título “O absurdo de Milhassi & Cia.” o autor do comentário dizia: “Henrique Milhassi, o presidente da Câmara, o homem que vota com o estômago ou com os pés, o que é a mesma coisa, vai aprovar o reajuste solicitado pela firma O. Cassamatta [que fornecia os paralelepípedos para a pavimentação das vias públicas], no valor de 1.300.000 cruzeiros. Quer dizer: vai dar para essa firma, de modo abusivo, revoltante, vergonhoso, dinheiro público que ele tem a obrigação moral de zelar, como cidadão, vereador e presidente da Câmara”.
Por diversas vezes Milhassi foi o “6º homem” na Câmara, às vezes da situação, em outras da oposição e ele se justificava dizendo que era independente e votava de acordo com os interesses do povo e do município. Por ser o “6º homem”, recebia o agrado de ambas as facções, tendo demonstrado muita habilidade, pois conseguiu até mesmo se reeleger para a presidência da Câmara, formando a Mesa Diretora com 2 situacionistas e 2 oposicionistas, em 1962. O ambiente no Legislativo local às vezes era tenso, com discussões acaloradas, mas Milhassi conseguia controlar seus pares, suspendendo o trabalho ou ameaçando evacuar as dependências da Câmara, quando a plateia exagerava nas manifestações.
Terminado seu segundo ano como presidente, Milhassi ainda conseguiu algum destaque junto aos seus companheiros, pois em 1963, em seu último ano de mandato, fez parte da Mesa Diretora, presidida por José Batista de Aguiar, com quem havia se desentendido e com mais dois vereadores da oposição (Flávio Della Paschoa e Anésio Bovolon). Ocupou, então a 2ª secretaria, permanecendo no cargo até o final do ano. Não se candidatou para uma 2ª legislatura em outubro de 1963, quando já havia reatado suas relações com a facção chinchinista. Ganhou então um cargo de administrador do Cemitério da Saudade e viveu mais alguns anos, depois de ter feito parte da história política de Salto como um personagem polêmico, que apesar de exercer uma profissão modesta, ocupou por duas vezes a presidência da Câmara.