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POLÍTICA SALTENSE

  • 8 de ago. de 2016
  • 3 min de leitura

Casos hilariantes nos pronunciamentos feitos em comícios

Os comícios já tiveram grande importância, numa época em que era praticamente a única forma de comunicação com o eleitorado, pois poucos tinham condições de se manifestar na imprensa ou mandar imprimir sua propaganda política. Também não havia os horários gratuitos em emissoras de rádio, por isso tinha-se que aproveitar a oportunidade de falar ao público nos comícios, que aconteciam em diversos pontos da cidade.

Nesses comícios havia oradores que deixavam os espectadores extasiados diante de tantas palavras bonitas que até emocionavam. Poderíamos citar, dentre aqueles que tivemos a oportunidade de ver em ação, Hélio Steffen, Joseano Costa Pinto e Mário Dotta, que realmente se sobressaíam dos demais, com maior destaque para o primeiro. A maioria era formada por candidatos mais simples e pouco dotados da facilidade em se expressar, que faziam rir pela forma como se manifestavam.

Lembramo-nos, por exemplo, de um discurso feito por um deles, um pedreiro que cismou de tentar se eleger vereador. Escalado para usar da palavra num dos comícios, ele preparou um longo arrazoado, enchendo duas ou três páginas de um caderno, que colocou num dos bolsos do paletó, antes de encaminhar-se para o local determinado. Ao chegar, o encarregado de redigir os discursos entregou-lhe uma peça oratória já pronta, ele apenas teria que ler o que estava escrito. Quando chegou sua vez, sacou o discurso caprichosamente escrito à máquina pelo encarregado e ficou quase 15 minutos soletrando as palavras. Enquanto isso, os demais candidatos que também estavam inscritos para falar, chutavam suas canelas, pedindo pressa. Percebendo que não estava entusiasmando a plateia, interrompeu o discurso que lhe foi oferecido e retirou o seu do bolso. Continuou a falar, agora mais empolgado, mas só fez aumentar os chutes, até que o apresentador, aproveitando-se de um seu cochilo, empurrou-o delicadamente, ao mesmo tempo em que solicitava ao público aplausos para o candidato “que acabara de se manifestar”.


Carlito Ferrari, o que “mancou” na Câmara e sempre (foto da época)

O que manca – Certa noite, fui assistir a um comício realizado na então Praça 16 de Junho (atual Archimedes Lammoglia), de um dos candidatos a prefeito, com sua equipe de vereadores. Nesta última fazia parte Carlos Ferrari, o “Carlito Papai Noel”, que em todo Natal agradava as crianças saltenses, às quais distribuía balas e presentes. Ele era suplente de vereador e tinha participado de uma sessão, durante a qual teria dado uma “mancada”, votando contra os interesses do povo, segundo a oposição. Ao usar da palavra, Carlito foi logo justificando o voto dado na Câmara: “Dizem que eu manquei, mas não foi só esse dia, eu sempre manco, porque tenho um olho-de-peixe no pé que não me deixa andar direito”. O dr. Mário Dotta, que estava ao meu lado, também assistindo ao comício, teve que se afastar, pois não se aguentava, de tanto rir.


Zéli – Uma figura muito conhecida na cidade, José Luiz Galvão, conhecido como Zéli, variação de José Luiz, seu nome de batismo, foi um dos grandes goleiros que a A.A. Saltense e a A.A. Avenida tiveram, na época em que os dois clubes locais disputavam o profissionalismo. Ele também foi inspetor de alunos, na Escola Paula Santos, sendo muito querido pelos alunos e professores. Certa feita resolveu candidatar-se a vereador e, numa das vezes em que foi escalado para usar da palavra, aproveitou-se do fato de ser negro e pediu aos eleitores: “Não vote em branco, vote no Zéli”.

Numa outra ocasião, como havia um candidato em sua facção que gostava de uma cachaça, ele filosofou com uma revelação surpreendente: “Não tem nada demais uma pessoa tomar uma pinguinha. Na 2ª Guerra Mundial, muitos brasileiros enfrentaram o frio que fazia na Itália tomando pinga, o que impediu que eles morressem”.


Archimedes – O dr. Archimedes Lammoglia às vezes participava de comícios realizados em Salto, apoiando candidatos de sua facção política. Contam-se dois casos hilários que tiveram sua participação. Numa das vezes, estava no palanque à espera de ser chamado para usar da palavra e um dos oradores que o antecederam, o dr. Iolando de Noronha, pai do ex-vereador Fernando de Noronha, ao terminar o seu discurso disse de sua satisfação de ser sucedido por dois grandes oradores, afirmando: “Vamos ouvir a seguir a ‘patativa saltense’, Hélio Steffen e também o ‘rouxinol saltense’, dr. Mário Dotta”. Archimedes não aguentou: “Um é patativa, outro é rouxinol e eu, o que sou? Vira-bosta?”.

Numa outra ocasião, Archimedes demonstrou toda sua franqueza, quando se dirigiu aos assistentes de um comício, num dos bairros mais afastados da cidade. Ele percebeu a situação difícil pela qual passavam os moradores daquele local, por isso perguntou:

- Vocês têm água encanada?

Yolando de Noronha: exaltando os grandes oradores (foto da época)

– Não, responderam em coro.

- Vocês tem rede de esgoto?

– Não!

- Têm calçamento nas ruas?

– Também não!

- E posto de saúde, vocês têm?

– Não!

- E escolas?

– Não também!

Vendo que aquela gente não tinha nada, Archimedes não aguentou:

- Se vocês não têm nada neste abandonado bairro, o que continuam fazendo aqui? Por que não se mudam?

 
 
 

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