POLÍTICA SALTENSE
- Valter Lenzi
- 2 de jan. de 2017
- 4 min de leitura
“Cidão” um vereador que marcou época na política saltense

Um dos personagens mais interessantes da política saltense em todos os tempos foi Alcides Victorino de Almeida (foto), conhecido por todos como “Cidão”. Durante 13 anos ele foi uma figura importante, com grande influência não só no Legislativo – onde atuava – mas também no Executivo. A partir da década de 1960, se tornou um elemento de muito prestígio junto ao então prefeito Joseano Costa Pinto, que ele considerou “o melhor que Salto já teve”, dentre aqueles que chefiaram a Prefeitura até por volta de 1985, quando ele já não atuava politicamente. Era diretor de Obras da Prefeitura, um cargo importante, pois naquela época não havia terceirizações ou contratações de empresas, como acontece hoje, para realizar os serviços municipais. Mesmo as grandes obras, como o Restaurante do Salto (hoje fazendo parte do Complexo da Cachoeira”), Avenida dos Trabalhadores, Hospital Municipal, Clube dos Trabalhadores, etc., ficavam sob a sua responsabilidade, no comando das centenas de funcionários do seu departamento. Era também um colaborador na apresentação de ideias, como a de transformar um prédio inacabado onde seria instalada uma estação de tratamento de água, no primeiro prédio da comarca de Salto na Rua 9 de Julho, posteriormente transformado em Prefeitura Municipal, sendo utilizado para esse fim até hoje. Também encontrava soluções para muitos problemas que eram enfrentados pelos prefeitos que se sucederam na Prefeitura (além de Joseano, Jesuíno Ruy por 3 vezes, Pilzio Nunciatto Di Lelli por 2 e Eugênio Coltro).Tinha personalidade, fazia valer suas ideias e por não aceitar imposições ou por não concordar com certas medidas, em suas funções como funcionário municipal ou como vereador, foi punido diversas vezes. Inclusive, ficou confinado, no segundo governo de Jesuíno e no primeiro de Pilzio, numa salinha nos fundos da Prefeitura, onde passava o dia “de castigo”, lendo jornais e assistindo a programas de televisão. Ele não se dobrava e enfrentava situações como essa com muito humor. Não guardava rancor, pois embora sofresse punições, acabava retornando ao convívio dos seus “algozes”, até mesmo sendo candidato nas chapas apresentadas por eles. Na Câmara – “Cidão” foi vereador numa época em que havia políticos espertos, verdadeiras “águias”, como Nelson Mosca, Eduardo Scivittaro, Fernando de Noronha, Messias Ticiani e outros. Eles fizeram valer suas vontades e enfrentaram administrações adversárias “aprontando” atitudes que valeram manchetes em várias edições da imprensa local e muitas dores de cabeça para os governantes. Com isso, impediram várias providências que poderiam causar prejuízos ao povo e ao próprio município. “Cidão” não era dos que dizia “amém” a tudo que o prefeito pretendia (mesmo quando fez parte da bancada que apoiava o Executivo) e em muitas ocasiões fez valer sua opinião, conseguindo o apoio dos demais companheiros.Ele foi vereador em três mandatos: de 1973 a 1976, de 1977 a 1982 (prorrogação de prefeitos e vereadores por um ano) e de 1983 a 1986. Nesse período de 13 anos foi presidente da Câmara em duas ocasiões: 1973/1974 e 1979/1980.Promoveu ou participou de algumas brincadeiras ou atitudes nada convencionais quando ocupava uma cadeira no Legislativo. Numa ocasião, por exemplo, o vereador Ênio Padovani usava da palavra e gaguejava ao pronunciar algumas palavras difíceis. “Cidão” solicitou-lhe um aparte e pediu que Ênio repetisse por três vezes e bem depressa uma frase de propaganda famosa na época de uma marca de pneus: “É mais do que pneu, é pneu com aço, é pneu-aço”. Em outra ocasião, o vereador Adelino Matiuzzi felicitava o então prefeito Jesuíno na tribuna da Câmara, pelas obras que vinha executando. “Cidão” aparteou-o para dizer: “Já que o assunto é sobre felicitações, quero aproveitar para cumprimentar o presidente Vicente Matheus, do Corinthians, pela contratação do jogador Zenon...” Por falar em Corinthians quando o alvi-negro conquistou o título, em 1977, depois de muitos anos “na fila”, “Cidão” compareceu a uma sessão da Câmara com a camisa do Corinthians, clube para o qual ele torcia.Um outro fato que faz parte do folclore político saltense foi um provável pedido para que fossem xerocados os documentos que estavam depositados na Abadia e que o prefeito Jesuíno pretendia incinerar. Na verdade, o que aconteceu é que “Cidão”, quando o pedido de autorização para a queima estava sendo discutido, perguntou aos integrantes da bancada do prefeito se não tinham recebido instruções para apresentar uma emenda no sentido de que fossem tiradas xérox dos documentos e papéis antes de serem incinerados. Ele falou num tom tão sério, que o líder da bancada do prefeito, Ênio Padovani, um tanto distraído, respondeu que não, ninguém lhe havia dito para que fossem xerocados...“Cidão” também gostava de brincar com o vereador João Rodrigues da Cruz e certa feita, quando ele iria viajar para a Inglaterra, perguntou-lhe como iria fazer para enviar de lá os pedidos de prorrogação da licença como vereador, que tinha que encaminhar a cada 60 dias para a Câmara. João perguntou-lhe porque fazia essa pergunta, ao que “Cidão” explicou: “É que lá as máquinas de datilografia só escrevem em inglês e por isso o jeito é você levar uma máquina brasileira, para não ter problemas”. Joãozinho a princípio demonstrou seu temor, pois iria ser difícil conseguir uma máquina de escrever em Londres para escrever em português, mas alguém acabou lhe explicando que não existia uma máquina que escrevesse numa só língua...Com essas participações que fizeram as pessoas rir e com as muitas atitudes que tomou em seus mandatos como vereador, mostrando-se bastante ativo e produtivo, “Cidão” marcou sua participação na política saltense como um dos personagens mais significativos, deixando saudades, enchendo de orgulho sua esposa Sônia, filha Cássia, genro Ludgero, netos e demais familiares.