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QUEM FOI QUEM

  • 9 de set. de 2019
  • 3 min de leitura

Francisco Ferraro (“Franchiné”) levava leitura (jornais e revistas) aos lares saltenses


Numa época em que ainda não existia a televisão no Brasil e os meios de comunicação eram apenas as emissoras de rádio e os jornais, uma pessoa se encarregou, durante vários anos (inclusive quando as emissoras de TV passara a funcionar) de abastecer a população com informações. Chamava-se Francisco Ferraro, mas todos o conheciam por “Franchiné”, corruptela de Francisco. Era italiano e veio para o Brasil na década de 1920, vindo morar com seu irmão Biaggio, que já residia na cidade há anos.



O jornaleiro percorria toda a área urbana da cidade carregando pesados pacotes

Trabalhou algum tempo na Fábrica de Papel, que pertencia à Brasital S.A., mas quase toda sua vida foi jornaleiro, o primeiro e único a exercer essa profissão por muitos anos. Seu irmão Biaggio possuía uma agência de jornais e revistas em frente ao Jardim Público, mas era “Franchiné” que percorria a cidade, carregando dois pacotes de jornais e revistas, um sob o braço, outro levado nas mãos.

Nos primeiros tempos (décadas de 1920/30) havia dificuldade para enviar as publicações para a cidade e “Franchiné” tinha que ir buscá-las em São Paulo, mas a partir de 1940 elas passaram a chegar em Salto trazidas pelos trens e na década seguinte pelos ônibus da Viação Anhanguera, que faziam o percurso São Paulo-Salto e vice-versa. Ele ficava uma fera quando os jornais não chegavam no horário, pois isso iria atrasar sua caminhada pela cidade, que se iniciava no centro, subia até o final da Vila Nova (Rua General Glicério) e chegava às ruas Marechal Deodoro, de um lado, e a Tiradentes do outro. Praticamente atingia a cidade toda, pois a área urbana se resumia a apenas esse quadrilátero, fora dele existiam umas poucas casas. As pessoas ficavam admiradas com a disposição do jornaleiro, de estatura pequena e carregando dois pesados fardos. Começava essa tarefa às cinco da manhã e terminava por volta de 13h30 ou 14 horas. Quando a Folha de São Paulo e o Diário de São Paulo passaram a publicar edições noturnas (Folha da Noite e Diário da Noite), “Franchiné” voltava às ruas, mas sua caminhada era menor que a da parte da manhã, pois o número de exemplares enviado a Salto era reduzido.


“Franchiné” era surdo e tinha dificuldades para se comunicar, não só pelo idioma mas porque sua voz era bastante rouquenha, quase inaudível. Eu gostava de me dirigir, nas horas de folga, à agência de seu irmão Biaggio, para onde o jornaleiro sempre ia, a partir da tarde até 6 ou 7 horas da noite. Ele me contava de sua vida na Itália, das muitas situações difíceis que lá enfrentava, da dificuldade em receber exemplares na Revolução de 1932, contando que ia para São Paulo buscar os jornais e às vezes ficava entre os tiroteios da facção paulista e a do então presidente Getúlio Vargas, que atuava contra as pretensões de São Paulo.

Antes de falecer, em 5 de junho de 1965, “Franchiné” já havia abandonado a caminhada pelas ruas da cidade, pois a avançada idade não mais o permitia. Ele adoeceu, tendo que ser cuidado por suas sobrinhas. A cidade toda sentiu sua falta, pois muitos deixaram de receber jornais e revistas em suas residências. Foi quando surgiram as primeiras bancas na cidade, a primeira na atual Praça Archimedes Lammoglia e as demais em outros pontos da cidade.


Família e homenagem – “Franchiné” não tinha família, vivia sozinho, aparado por seu irmão Biaggio e sobrinhas.

Antes de falecer ele foi homenageado pela Câmara Municipal de Salto, pelos serviços prestados à coletividade, recebendo o título de “Cidadão Saltense”. Foi o primeiro estrangeiro a receber a honraria.

 
 
 

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