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REPETECO

  • 9 de set. de 2019
  • 3 min de leitura

Setembro de 1955


O menino, com 14 anos de idade, já é quase um mocinho e ele, como toda a população, só pensa na Festa Setembrina. Seus pais até mandaram um dos muitos alfaiates da cidade lhe fazer um terno de casimira, que ele certamente vai usar nas noites em que for passear na praça e no acompanhamento da procissão do dia 8.

O parque de diversões está instalado no chão de terra da Praça da Bandeira, com seus cavalinhos de pau empurrados pela molecada, assim como a roda gigante, as barracas, o tiro ao alvo, de pesca, de pastel e outras. Os barraqueiros também estão chegando e se instalando nas barracas construídas pelo Alberico de Oliveira e que tomam grande parte da praça e das ruas próximas, como a 9 de Julho e José Weissohn. Quem não conseguir alugar um espaço nesses locais, vai ter que botar a mercadoria no chão mesmo. Quanta oferta, meu Deus! Será que vai ter comprador pra tanta mercadoria?

Vai. Afinal, a maioria dos saltenses está empregada e ganha salários razoáveis na Brasital, na Têxtil Assad Abdalla e nas indústrias novas que se instalaram na margem esquerda do Rio Jundiaí (Eucatex, Emas e Sivat). Todo mundo está reservando um “dinheiro pra gastar na festa”, para desespero dos comerciantes da cidade, que abominam esse tipo de comemoração, tendo em vista o prejuízo que lhes proporciona. Mas não vai ser só os saltenses que vão comprar: trens correrão lotados entre Salto e Itu nos dias da festa e especialmente no dia 8, quando é “meio feriado” na cidade vizinha (trabalho só na parte da manhã). De Indaiatuba, Monte Mor, Elias Fausto, Capivari e até de cidades mais longínquas virão muitas pessoas, em ônibus da linha ou extras, pois a “Festa do Salto” é famosa em todo o Estado.

O movimento vai ser tão grande que não vai se poder andar na praça, pois ali estarão montadas também as barracas de entidades locais, sorteando prendas doadas pela população; as barracas vendendo vinho de São Roque e outras, avulsas, oferecendo doces, salgados, favos de mel, pipoca com manteiga, quebra-queixo, amendoim, maçã do amor, etc.

Os alto-falantes da praça e do parque enchem os ares com as paródias do Zé Fidélis (“Estavam os dois no portão, Maria Gasogênio e Joaquim Sabonetão...” – “Costa Pereira, goleiro português que jogava de costas...” e outras), músicas de Cascatinha e Inhana, Ângela Maria, Nelson Gonçalves, Cauby Peixoto e outros famosos da época. Gritos de “números de volta” pedidos para os que percorrem a praça vendendo bilhetes para os sorteios das barracas da igreja e o barulho das roletas girando também é ouvido, assim como a propaganda “no grito” dos barraqueiros.

A praça é uma grande mistura de sons, odores, cores e movimento. O menino-moço, com seu terninho de casimira, se encanta com aquilo tudo e seus olhos se iluminam com as luzes da praça. Isso dura até o espocar dos fogos do dia 8, ribombando por toda a pequenina cidade, parte da qual já dorme, porque o dia seguinte é de trabalho.

Aos poucos os sons vão se aquietando, os odores se diluindo, as cores perdendo seus tons, o movimento se resumindo a uns poucos notívagos e bêbados. Luzes se apagam e a escuridão vai tomando conta da praça, transformando a festa em passado. Haverá doze longos meses pela frente, até a festa do ano que vem e isso provoca no menino de 14 anos uma angústia, uma tristeza sem tamanho.

Naquela Salto de 1955, a Festa Setembrina era a diversão máxima, o acontecimento insuperável do ano todo.

 
 
 

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